Atualizado · Portaria MTE nº 1.419/2024

NR-1 e os Fatores de Riscos Psicossociais

Guia prático para identificação, avaliação, inventário, AEP, lançamento no PGR e plano de ação — com base nas diretrizes do MTE e na abordagem estruturada do SOC.

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O que mudou na NR-1 e por que os Riscos Psicossociais passaram a ser obrigatórios

A Portaria MTE nº 1.419/2024 atualizou a NR-1 e tornou obrigatória a inclusão dos fatores de riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Com a mudança, a gestão da saúde mental no trabalho deixa de ser uma boa prática opcional e se torna uma exigência legal com a mesma hierarquia dos riscos físicos, químicos, biológicos e de acidentes.

O que são riscos psicossociais? Fatores ligados à organização, ao conteúdo e às relações de trabalho que podem comprometer a saúde mental e física dos trabalhadores — como sobrecarga, assédio, baixa autonomia, falta de suporte e insegurança no emprego.

Base normativa

NR-1 (Portaria MTE 1.419/2024) · NR-17 (Ergonomia) · OIT Convenção 190 · ISO 45003:2021

Prazo de adequação

Empresas com até 20 trabalhadores: 26/05/2026
Demais empresas: vigência imediata

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O que as Empresas Devem Fazer

O Manual do GRO/PGR, publicado pelo MTE em 2026, estrutura a gestão de riscos psicossociais em cinco obrigações principais que devem compor o GRO de toda organização:

  • 1
    Identificar os fatores de risco psicossocial

    Mapear os fatores presentes nos processos, ambientes e formas de organização do trabalho — incluindo regimes remoto, híbrido e teletrabalho.

  • 2
    Avaliar os riscos com base em critérios técnicos

    Classificar os riscos por probabilidade, gravidade e exposição. A análise técnica dos dados é obrigatória — o uso isolado de questionários não é suficiente para cumprir a norma.

  • 3
    Registrar no inventário de riscos do PGR

    Documentar todos os fatores psicossociais identificados e avaliados, com os critérios adotados, as medidas existentes e as propostas de controle.

  • 4
    Implementar o Plano de Ação

    Definir medidas de controle com responsáveis, prazos e indicadores, seguindo a hierarquia de controles (eliminação → substituição → engenharia → administrativo → EPI).

  • 5
    Monitorar e revisar continuamente

    O GRO é um processo vivo — não apenas um documento. A NR-1 exige acompanhamento contínuo e revisões conforme o nível de risco e mudanças nas condições de trabalho.

Atenção: Segundo o MTE, apenas aplicar questionários de clima organizacional não atende às exigências legais. É necessário análise técnica dos dados, implementação de medidas preventivas concretas e comprovação da participação dos trabalhadores no processo.

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Como Identificar os Fatores de Risco Psicossocial

A NR-1 não determina uma metodologia única. Cada organização pode escolher os meios, desde que tecnicamente fundamentados. As abordagens mais adotadas são:

Questionários validados

COPSOQ, JCQ (Karasek), MBI (Maslach) — aplicados de forma anônima. O SOC disponibiliza questionário digital integrado ao módulo de segurança do trabalho.

Observação das atividades

Percurso pelo ambiente de trabalho, análise do processo produtivo e registro das condições observadas — etapa essencial da AEP.

Entrevistas participativas

Conversas estruturadas com trabalhadores e líderes para captar percepções qualitativas que os dados quantitativos não revelam.

Categorias de fatores a mapear

Categoria Exemplos de fatores
Organização do trabalho Jornada excessiva, ritmo acelerado, metas inatingíveis, trabalho noturno
Relações interpessoais Assédio moral, assédio sexual, conflitos, isolamento, falta de suporte da liderança
Conteúdo do trabalho Monotonia, falta de sentido, carga emocional elevada, sub ou superqualificação
Autonomia e controle Falta de controle sobre o próprio trabalho, monitoramento excessivo, microgestão
Insegurança no emprego Instabilidade, reestruturações frequentes, falta de comunicação clara
Conciliação trabalho-vida Disponibilidade permanente, home office sem limites, dificuldade de desconexão
Como o SOC apoia esta etapa

O módulo de Segurança do Trabalho do SOC oferece questionário digital de avaliação de riscos psicossociais, com modelos prontos e integração ao GHE do trabalhador. Os resultados alimentam diretamente o inventário de riscos do PGR, eliminando retrabalho e garantindo rastreabilidade.

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Como Avaliar os Riscos Psicossociais

A avaliação deve considerar três dimensões combinadas, gerando um score que classifica o nível de risco de cada fator identificado:

Dimensão O que avalia Escala
Probabilidade (P) Chance de o fator causar dano ao trabalhador 1 — Rara  ·  5 — Quase certa
Gravidade (G) Severidade do dano potencial (reversível a fatal) 1 — Leve  ·  5 — Catastrófico
Exposição (E) Frequência e duração do contato com o fator 1 — Esporádica  ·  5 — Permanente

Fórmula: Nível de Risco = P × G × E    Crítico 75–125   Alto 36–74   Médio 12–35   Baixo 1–11

Classificação Score Ação exigida
Crítico 75–125 Intervenção imediata. Plano de ação urgente sem prazo de carência.
Alto 36–74 Medidas prioritárias em até 30 dias. Monitoramento mensal.
Médio 12–35 Medidas em até 90 dias. Monitoramento trimestral.
Baixo 1–11 Melhoria contínua. Revisão anual.

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Como Inventariar os Riscos Psicossociais

O inventário de riscos é o documento central do GRO e deve registrar formalmente cada fator psicossocial identificado e avaliado. O Manual do GRO/PGR exige manutenção desse registro por no mínimo 20 anos.

Campo Descrição Exemplo
Código Identificador único do risco PSI-001
GHE Grupo Homogêneo de Exposição Atendimento ao Cliente
Fator de risco Descrição do fator identificado Pressão por metas e ritmo acelerado
Fonte / Origem Processo ou condição geradora Sistema de metas de produtividade
Trabalhadores expostos Quantidade e função 25 atendentes
Score (P × G × E) Resultado da avaliação e nível 4 × 4 × 4 = 64 — Alto
Medidas existentes Controles já implementados Pausas de 15 min a cada 2h
Medidas propostas Novos controles no plano de ação Revisão de metas, apoio ao trabalhador
Data de inclusão Registro temporal 01/05/2025
Revisão prevista Próxima avaliação 01/11/2025
Como o SOC apoia esta etapa

O módulo de GRO e PGR do SOC permite registrar, classificar e gerenciar o inventário de riscos por GHE, com validação para o eSocial (S-2240). O sistema mantém histórico completo e gera automaticamente os documentos legais exigidos, incluindo o documento base do PGR.

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Como Fazer a AEP — Análise Ergonômica Preliminar

A AEP (Análise Ergonômica Preliminar), introduzida pela NR-17 em 2022 e integrada ao GRO pela NR-1, é obrigatória para empresas de todos os portes — inclusive MEIs e empresas dispensadas de manter PGR, para as quais a AEP se torna o principal documento comprobatório de gestão de riscos ergonômicos e psicossociais.

  • 1
    Percurso e reconhecimento do ambiente

    O profissional responsável deve percorrer a área avaliada, entender o processo produtivo e identificar as condições de trabalho prevalentes antes de iniciar o checklist.

  • 2
    Definição dos GHEs

    Agrupar trabalhadores que compartilham exposição similar aos mesmos fatores de risco ergonômicos e psicossociais (Grupos Homogêneos de Exposição).

  • 3
    Identificação dos perigos e fatores psicossociais

    Para cada GHE, descrever os fatores de risco presentes: como se manifestam, em que condições, com que frequência e quais trabalhadores afetam. Documentar com fotografias quando necessário.

  • 4
    Descrição do dano potencial

    Identificar os possíveis danos à saúde: estresse crônico, Síndrome de Burnout, Transtornos de Ansiedade, Depressão, LER/DORT de causa organizacional.

  • 5
    Avaliação da exposição e aplicação da matriz

    Calcular P × G × E para cada fator e classificar o risco. Fatores classificados como Médio, Alto ou Crítico devem constar obrigatoriamente no PGR com plano de ação.

  • 6
    Hierarquia de controles

    Propor medidas seguindo: Eliminação → Substituição → Controles de Engenharia → Controles Administrativos → EPI/EPC. As soluções devem ser resultado de consenso entre o avaliador, gestão e trabalhadores.

  • 7
    Avaliação do risco residual

    Após propor os controles, reavaliar o risco para verificar se o nível residual é aceitável. Se não, retornar à etapa de controles com medidas complementares.

  • 8
    Documentação e registro no sistema

    Registrar toda a análise: descrição do perigo, dano potencial, score, medidas propostas e risco residual. A AEP pode ser utilizada como evidência da gestão de riscos nas fiscalizações do MTE.

Quando a AEP identificar situação que necessite aprofundamento — como alta prevalência de afastamentos por transtornos mentais ou denúncias de assédio — deve ser complementada pela AET (Análise Ergonômica do Trabalho), conduzida por profissional especializado em ergonomia.

Como o SOC apoia esta etapa

O SOC possui módulo dedicado à Ergonomia (AEP) conforme NR-17, com checklist digital, registro por GHE, geração automática do documento base da AEP, inventário de riscos ergonômicos e plano de ação integrado ao PGR.

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Como Lançar os Riscos Psicossociais no PGR

O PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos) é o documento que representa o GRO. Com a atualização da NR-1, os riscos psicossociais passam a integrar obrigatoriamente sua estrutura:

Capítulo do PGR Onde entram os riscos psicossociais
Política de SST Declaração explícita de compromisso com a prevenção de riscos psicossociais e promoção da saúde mental
Inventário de riscos Tabela completa com todos os fatores psicossociais por GHE, com avaliação P × G × E e medidas de controle
AEP Formulários da Análise Ergonômica Preliminar para cada fator classificado como Médio, Alto ou Crítico
Plano de Ação Medidas de controle, responsáveis, prazos, indicadores e critérios de verificação de eficácia
Monitoramento Indicadores de saúde (absenteísmo, afastamentos CID F, CAT), cronograma de revisões e critérios de reavaliação
Capacitação Treinamentos sobre gestão de riscos psicossociais, prevenção de assédio e saúde mental no trabalho
Participação dos trabalhadores Registro das formas de envolvimento dos trabalhadores no processo de identificação e avaliação dos riscos

Integração com o eSocial

  • Riscos psicossociais informados no evento S-2240 (Condições Ambientais do Trabalho)
  • PGR referenciado no evento S-2220 (Monitoramento da Saúde do Trabalhador)
  • O SOC permite emitir o PGR com validação direta para o eSocial, eliminando inconsistências entre documentos
Como o SOC apoia esta etapa

O SOC gera o documento base do PGR (tradicional e com validação para o eSocial), integra inventário, AEP e plano de ação em um único sistema e mantém rastreabilidade de todas as revisões. Gestão 100% digital com assinatura eletrônica via SOC Digital.

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Plano de Ação

O plano de ação deve ser elaborado para cada fator classificado como Médio, Alto ou Crítico. A estrutura 5W2H garante clareza, rastreabilidade e eficácia nas ações:

Elemento Questão Exemplo prático
What O que será feito? Programa de escuta ativa e suporte ao trabalhador
Why Por que é necessário? Controlar sobrecarga e risco de Burnout no setor
Who Quem é responsável? RH + responsável de SST
When Qual o prazo? 30/06/2025
Where Em qual setor / GHE? Atendimento ao Cliente
How Como será implementado? Canal de escuta, revisão de metas, política de desconexão
How much Qual o custo previsto? Interno — sem custo adicional direto

Exemplos de medidas por tipo de fator

Assédio moral e sexual

Canal de denúncia anônimo, comitê de ética, política formal anti-assédio, treinamento de lideranças e processo investigativo documentado.

Sobrecarga de trabalho

Revisão de metas, controle de banco de horas, pausas regulamentadas, política de desconexão digital e gestão de prioridades.

Falta de autonomia

Reestruturação de processos, delegação de tarefas, participação dos trabalhadores nas decisões e feedback estruturado.

Insegurança no emprego

Comunicação transparente sobre mudanças organizacionais, plano de desenvolvimento e canais abertos de diálogo com a liderança.

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Periodicidade das Avaliações conforme o Nível de Risco

A NR-1 exige revisão do PGR e do inventário sempre que houver mudanças significativas nas condições de trabalho e conforme a periodicidade mínima definida pelo nível de risco classificado:

Nível Revisão do inventário Revisão do plano de ação Monitoramento PCMSO Revisão do PGR
Crítico Mensal Mensal Trimestral A cada 6 meses
Alto Trimestral Trimestral Semestral A cada 6 meses
Médio Semestral Semestral Anual Anual
Baixo Anual Anual Anual A cada 2 anos

Gatilhos para revisão imediata

  • Afastamento por doença mental (CID F) com nexo causal reconhecido ao trabalho
  • Denúncia formal de assédio confirmada em processo investigativo
  • Reestruturação organizacional, fusão ou processo de demissão coletiva
  • Introdução de nova tecnologia, processo ou forma de organização do trabalho
  • Aumento súbito de absenteísmo superior a 20% da média histórica do setor
  • Demanda da CIPA ou dos trabalhadores com evidência documentada de risco emergente

Registro obrigatório: Todas as revisões devem ser documentadas com data, responsável técnico, metodologia e alterações realizadas. O PGR deve ser armazenado por no mínimo 20 anos, conforme NR-1.

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